vê aquilo que criaste, querido amigo - condenaste-me a noites em branco, às claras tão no escuro, sei lá.
não perdoo,
mas as noites são a pior parte
ciente da escuridão pavorosa que governava, subiu as tais ruelas virtuosas, de paredes que amou de imediato. talvez por necessidade de uma morada adotiva mas perpétua, talvez porque delas emana calor quase humano. ainda assim sentia o frio cortante da noite a magoar-lhe os braços nus e pálidos, de veias turquesa que se insinuavam. percorreu travessas e escadarias confiante de que estava em casa, dentro de uma esfera de proteção imperturbável. no topo da escadaria mais longa parou, para assimilar a imagem presente na sua plenitude. dali via a imensidade de lisboa, um campo violeta de luzes que, à primeira vista, dançavam; aquilo que lhe chegaria para nunca mais ter de partir-para-longe-para-sempre.
"É numa água-furtada
quando tento dormir sinto-te tão perto que só ocupo um lado da cama para te dar espaço. já nem durmo. pode dar-se o acaso de quereres conversar.![]() |